No último domingo, mesmo com todos os dentes de Gorete (a feia que virou mais ou menos, do Pânico na TV) sendo mostrados ao vivo, uma galera gigantesca deixava as questões dentárias de lado e sofria com um streaming lento, lotado e, mesmo assim, adorado. Era o fim da era Lost, o seriado que há seis temporadas manteve uma legião de fãs malucos, que se desdobraram na tentativa de linkar todos as pistas deixadas pelo criador da série, J. J Abrams.
Daí você pensa: lá vem mais um cara falar dessa série que eu não vi. E eu digo: BATE AQUI, MERMÃO! Mesmo considerando J. J. Abrams um dos novos totems do entretenimento global, sendo viciado nessa coisa toda de ficar tentando achar agulhas em palheiros e, claro, um nerd de carteirinha, consegui sobreviver à era Lost incólume. Sei quem é Jack, Sawyer e até Locke, e já vi umas fotinhas da ilha e do avião todo destruído. Mas, apesar de todo o hype envolvido no seriado, a escolha de fugir dele deu certo. E nem chorei no domingo.
Para mim, hype é tudo aquilo que consegue angariar uma legião de fãs sem muito esforço. Pode ser bom, pode ser ruim, pode não ser nem bom nem ruim. Mas, de alguma forma, quando surge, faz as pessoas acreditarem que nada depois daquilo vai ser do mesmo jeito. Foi assim com a banda Strokes, por exemplo, que, taxada de salvação do rock em seu primeiro disco, teve no seu terceiro a crença de que quem precisava ser salvo era a turma de Julian Casanblancas.
Hoje em dia, em que bandas de rock, novidades tecnológicas e divas pop surgem por atacado, é fácil se pensar que o hype causa mais frustrações que o amor. Sempre existiu aquele grupo que transforma cultura pop em religião, os Jedis tão aí para provar. Mas agora, com a internet dando chance à todo mundo que tem talento, qualquer oportunidade que um produtor enxerga de espremer a laranja da qualidade do trabalho alheio é feita sem dó.
O lance não é a aparição dos talentos, mesmo que o egoísmo de muita gente sinta ódio eterno da internet. O que acho um problema é justamente a exploração de talentos que ainda não estão prontos, simplesmente com a exposição extrema deles. Sobreviver à um hype equivale hoje à não se molhar no meio dum temporal, em um descampado, sem roupa. Ou seja, meio que difícil, não é mesmo? Lost foi além do hype e suas seis temporadas provaram que o talento não tornou-se suco e pode ser explorado de forma a criar um mito.
Mas, como ninguém aqui vive perdido em uma ilha deserta, é sempre legal não deixar se levar pelas ondinhas e tentar entender que a gente escolhe o que é bom.
Coluna Pop Machine #3


