[disfarce seu desprezo]

[dos medos e vícios]

23 setembro, 2009 · 3 Comentários

Vício

Eu tenho medo de vícios, sejam eles quais forem. Nos meus quase 25 anos, procurei ter o máximo possível de experiências, fosse para entender o que é tido como proibido ou para tentar compreender se aquilo seria uma perda ou um ganho na minha história. É certo que, na maioria das vezes, elas ficam sob a máscara de algo bom, já que, pelo menos, você vai saber do que se livrou. Mas, não importa qual seja a experimentação, em todas elas tento internalizar que não vai passar a ser necessárias.

Eu tenho medo de viciados. Eu tenho medo da forma com que algo que você nunca precisou para viver se torna tão assustadoramente controlador. Seja enquanto você está bitolado com a necessidade de ter aquela experiência ou após ela ter deixado de ser necessidade, o fato é que um vício é algo insuperável, por conta da incapacidade do corpo em resistir à ilusão de prazer que ele traz. Isso vai além de álcool, drogas, cigarro. Isso engloba amor carnal, relacionamentos familiares, qualquer insinuação de posse que venha revestida de cuidado.

Tenho medo de amar demais por causa disso. Tenho medo das crenças exageradas, que por tanto tempo me fizeram pensar que eu era uma pessoa errada e que, mesmo hoje, quando tenho a mais completa certeza de que sou feliz, ainda me atormentam. E, claro, o tormento acaba sendo compartilhado. A religião não impregnou de vícios apenas meus devaneios católicos. Ela faz com que, mesmo por outros dogmas que eu desconhecia até então, minha vida seja pautada pela necessidade de vencê-los.

O exagero é palco, para tentar expurgar todo o mal causado por uma crença que jamais aceitou a felicidade da forma como eu acreditava ser a única. É a crença de que seguir as regras estabelecidas é mais importante do que tentar um sorriso sincero e que fugir delas, mesmo que não haja racionalidade alguma que as explique, faz com que até mesmo a família celebrada pelo amor dos deuses seja colocada à parte, em prol do que Eles dizem ser correto.

Às vezes me pego pensando se toda aquela vontade de ser visto, de ser notado, de ser amado, de ser aceito não vem do receio de que o “eu mesmo” nunca foi compreendido pelo que sempre fomos colocados para acreditar.  Os vícios corroem não porque ainda existem, mas porque não deixam seguir em frente. É preciso gritar contra, demonstrar total controle sobre o que é oposto ao dito como certo, quando o descontrole emocional não deixa ver que o mais simples seria entender a liberdade como uma forma de entendimento.

Não é calar-se. Não é ficar mudo e esquecer o quanto sofreu. Jamais! Se existem erros, eles precisam ser anunciados, discutidos, tratados. O que não deve existir é o vício. É a idéia de que ir contra tudo e todos é a forma de expurgar um sofrimento que, pelo menos agora, só oprime por conta do tempo perdido. Mas será que é mesmo perdido? Provavelmente não. Se há forças pra externar o que pensa, ainda há forças para garantir felicidade.

E há como ser feliz mesmo sabendo que, na maior parte da sua vida, disseram que você estava errado. Mas não estava e é nisso que temos que nos segurar. E deixar o ódio para quem não entende. Nós, por aceitarmos, já decidimos que entendemos. Pelo menos um pouco.

Categorias: amor · desilusão · desprezo · dor · egoísmo · família

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