
“A vida de Brod era uma lenta percepção de que o mundo não era pra ela, e de que – fosse por que razão fosse – ela jamais seria feliz e sincera ao mesmo tempo. Ela sentia-se transbordar, sempre produzindo e guardando mais amor dentro de si. Mas não havia libertação. Mesa, bibelô de marfim em forma de elefante, arco-íris, cebola, penteado, molusco, Shabbos, violência, cutícula, melodrama, vala, mel, paninho ornamental… Nada daquilo a comovia. Ela abordava o mundo com sinceridade, buscando algo merecedor do enorme amor que sabia ter dentro de si, mas para cada coisa teria de dizer, Eu não te amo. Mourão de certa cor de casca de árvore: eu não te amo. Poema longo demais: eu não te amo. Nada dava a sensação de ser mais do que na realidade era. Tudo era apenas coisa, completamente atolada na sua coisice.”
Tudo se ilumina
(Everything is Illuminated)
Jonathan Safran Foer
…
Categorizar é uma característica evolutiva dos seres humanos. Os homens pré-históricos precisavam saber que animais poderiam caçar, quais as plantas que poderiam comer e, mais à frente, o que poderia ser plantado. Às mulheres, cabia a visão geral da casa, analisando todos os riscos que estavam ao redor da cria, dividindo-os através de categorias, como alimentos a serem evitados e quais animais que poderiam matar seus filhos.
Hoje ninguém caça pra comer (sem trocadilhos) e não tem nenhum tigre dentes de sabre à solta para matar a cria. Mas, ainda assim, temos a mania de colocar tudo divididozinho em nossa cabeça, seja para conseguir fazer associações de um nome à uma pessoa ou saber que dois mais dois sempre vai ser quatro. Isso é bom e necessário, mas acaba sendo um tanto limitante. Pensando de forma egoísta, categorização faz com que padrões estabelecidos sejam mais difíceis de serem mudados.
Por exemplo, fica bem complicado para a minha mãe entender quando digo que não tenho religião mas, ainda assim, acredito em Deus. É estranho para ela alguém ter uma crença que não está definida: não é católico, não é evangélico, não é budista e nem mórmon. Isso cria um certo transtorno de associação, já que não vai existir aquela possibilidade de me colocar em alguma categoria que, através de um nome, vai tratar de definir grande parte do que eu possa ser.
A complicação disso tudo ainda é maior quando se pensa que são as categorias que fazem com que ser diferente não seja considerado normal. As vantagens evolutivas esbarram na diversidade humana, não permitindo que, em muitos casos, as pessoas consigam abrir melhor o pensamento na aceitação de algo que esteja fora dos padrões que ela está direcionada a considerar como certo.
E em pontos que rivalizam com a própria capacidade de adaptação das pessoas, fazendo com que a interação seja dificultada e a gente deixe de conhecer melhor um bando de gente porque esse bando está fora das categorias que a nossa mente resolveu classificar como corretas. Não é querendo justificar o preconceito com ciência, até porque isso soa como eugenia.
Mas é inegável que fica mais fácil viver quando se consegue estabelecer quem é quem na nossa cabeça. Fulano é empresário, gosta de futebol aos domingos e é flamenguista, além de ser do grupo de homens da igreja. Beltrana trabalha com artes plásticas, tem um namorado com quem vive, mas não é casada e cozinha todos os domingos para a mãe.
É preciso que a gente olhe para a pessoa e coloque-a nessas linhas, nesses espaços que vão ser preenchidos e que vão, tristemente, limitar as nossas escolhas na hora de nos relacionarmos. Apesar de, obviamente, não existir obrigação alguma de se viver dando atenção para todos, quando a categorização é baseada em aspectos que ficam restritos ao que se vê e ao que se ouve, há uma perda de oportunidades. O bom mesmo é ter as suas categorias mas que elas não sejam um empecilho para o desconhecido. Se ele não agradar, colocamos aquela sensação na prateleira do que não é bom. E seguimos em frente.
5 respostas Até agora ↓
Natália Vaz // 6 Maio, 2009 às 7:51 pm |
[E em pontos que rivalizam com a própria capacidade de adaptação das pessoas, fazendo com que a interação seja dificultada e a gente deixe de conhecer melhor um bando de gente porque esse bando está fora das categorias que a nossa mente resolveu classificar como corretas.]
Hoje mesmo eu perguntei pro Ennio se ele não achava que um dos colegas de classe dele deve ser hostillizado. Eu o hostilizaria…
luana // 6 Maio, 2009 às 10:19 pm |
oscar schell:
filho
caio // 6 Maio, 2009 às 10:51 pm |
renata // 17 Maio, 2009 às 10:53 pm |
Tava discutindo sobre isso nessa semana, mas era mais na direção como algumas pessoas fazem parte de um tipo já definido e pensam que isso é personalidade, p/ mim as pessoas devem ter preferencias, mas acho estranho se encachar perfeitamente em algo definito como “patty” “alternativo” “emmo”, eu nunca tive um tipo( a não ser o dos neuróticos e loucos tvz), mas é estranho não ver q o q vc diz q eh sua personalidade é na verdade personalidade de td o grupo.
eu acho que não consegui dizer o q queria, e falei meio o oposto do teu comentario sem querer, pq também concordo e por vezes as pessoas são mt mais do q nós a definimos, mas enfim, jah escrevi isso não vou deletar.
Sandra C. // 21 Maio, 2009 às 11:14 pm |
nossa, eu estava exatamente conversando sobre isso recentemente. muito bom o texto, abriu-me bastante a mente.