[disfarce seu desprezo]

[amigos imaginários, amigos necessários]

23 Março, 2009 · 10 Comentários

 amigo_imaginario-copia

É engraçado como tendemos a ser pessimistas. E, mais engraçado ainda, é o quanto esse pessimismo tende a surgir especialmente quando tudo parece bem. Crescemos acostumados a uma certa idéia católica [não importa a sua religião, a sociedade ocidental tem um grande ranço católico, especialmente a brasileira] de que devemos sentir culpa de tudo o que fazemos fora daquelas idéias de caminho correto que as religiões estipulam.

 

Eu fui uma criança extremamente atormentada porque, desde sempre, tenho desejos e idéias que destoavam daquilo que, biblicamente, seria o certo a se fazer. E aqui não estou dizendo que era um prodígio, que ficava discutindo o sexo dos anjos na hora do recreio, longe disso. Aliás, seria até melhor se fosse assim. Eu era apenas um garoto medroso, que acreditava em inferno e, mais ainda, que ele começava mesmo na Terra.

 

Tive muitas atitudes que agora, em retrospecto, percebo que foram apenas naturais da idade, descobertas necessárias à qualquer ser humano. Mas, naquela época, me faziam sentir medo e culpa de forma física [cara, era dor mesmo] de um tanto que uma das minhas lembranças mais vívidas é de quando eu saia em meio aos ensaios da primeira comunhão para chorar, sentindo que não deveria receber aquele sacramento porque não era digno.

 

Ainda hoje tenho um enorme sentimento de repulsa com tudo que os crentes na fé católica me fizeram sentir e, ao mesmo tempo, não duvido que grande parte da minha índole [que, sem falsa modéstia, é completamente baseada no tal “fazer o bem sem olhar a quem”] teve os preceitos de Jesus Cristo com guias. Meu problema, claro, hoje percebo isso, não é com o que foi dito sobre ele ou com o que ele disse.

 

Na verdade, é mais em direção aquela frase do Sartre: “Não importa o que nos fizeram, o que importa é aquilo que fazemos com o que fizeram de nós”. Se tem algo que tento por tudo hoje é não reclamar tanto da educação que tive. Porque, sob a maioria dos aspectos, ela me fez ser uma pessoa que, na falta de palavra melhor, é boa. Mas, confesso, ainda é impossível para mim entrar numa igreja e não me sentir oprimido. Também mantenho dúvidas enormes sobre a minha fé e, mais ainda, sobre a necessidade dela.

 

Quando me vejo nesses momentos pessimistas, é quase instantâneo que o pensamento siga até deus [Deus?]. Mais ainda quando a sua felicidade iminente corre riscos, já que é meio raro sentir-se feliz em tempo integral. Quero chegar num ponto em que eu não precise acreditar só porque me sinto culpado de não fazê-lo. Quero poder escolher no que acreditar por ter chegado em um ponto que todos os meus traumas de infância serão superados [mesmo que aí pareça mais caso de análise do que crença].

 

Deus ainda me traz uma idéia maior de ser um amigo imaginário do que, realmente, uma força transcendental que move montanhas. Ser cético em relação à isso não me obriga a não achar que necessitamos dessa sensação de crença, seja em Deus ou em qualquer outra coisa. Crer é necessário, seja no que for. O fato de não termos como escolher isso quando nascemos é que faz com que aprendamos idéias que nos oprimem.

 

[esse texto, na verdade, era para ser um e-mail. Mas, acabou que viajei e se tornou isso. Meus traumas católicos mereciam um sem número de discussões, mais ainda com um profissional da área médica. Porém, enquanto não tenho grana para bancar, fico nessa de escrever]

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10 respostas Até agora ↓

  • Tania Samara Lemos // 23 Março, 2009 às 1:52 pm | Responder

    Tu devia me encaminhar e-mails assim… discuto legal contigo… kkkkk!!! xD

    Saudade baby.
    =*

  • Alicia // 24 Março, 2009 às 10:33 am | Responder

    Nós somos o nosso Deus.
    =*

  • ; daniel // 24 Março, 2009 às 11:23 pm | Responder

    Porra, eu resolvi passar aqui hoje e esse assunto foi abordado por mim no meu último post. Que coinscidência! Glória a Deus! hahaha

  • Fábio Lima // 24 Março, 2009 às 11:46 pm | Responder

    meus traumas de catolicismo acabaram qdo minha mãe se formou em teologia e passou a concordar com quase tudo o que eu penso – ela não sabe tudo o que eu penso.

    se tu fala assim, avalie eu, que até grupo de jovens coordenei, sem concordar com tudo que havia ali…

    isso dá umas 10 skols, cara….

  • Carol // 25 Março, 2009 às 12:50 am | Responder

    Os católicos comem o próprio Deus, todos os domingos e o matam com requinte de crueldade uma vez por ano. Há algo de muito estranho nessa cosmologia, não acha?

  • line // 28 Março, 2009 às 7:34 am | Responder

    tu ia gostar do livro que eu tô lendo… “Deus: um delírio”. se não fosse do meu chefe, eu levaria pra tu ler na semana santa…. nossa, q sacrilégio. vou pro inferno… kkkkkkkkkk…..

  • Tigo // 31 Março, 2009 às 8:41 pm | Responder

    Catolicismo, traumas, Deus, incertezas, médicos, deixa isso de mão, ou não… só CONTINUA ESCREVENDO!

  • Clarissa // 31 Março, 2009 às 11:31 pm | Responder

    Graças a Deus (?) não sofro desse mal. É o bom de não ter mãe católica. Amém!! =D

  • Talyta Mafra // 17 Abril, 2009 às 4:33 pm | Responder

    Postei um comentário ainda agora num blog amigo, confessando a minha vontade de ser freira, há algum tempo atrás (eu realmente achava que era isso que eu ia ser) e isso causou, por muito tempo, confusões sem tamanho, fazendo a minha vida um tanto quanto caótica… Essa conversa é infinita… e concordo contigo quando diz que é preciso ter fé, não importa em quê ou quem.
    Que Deus abençoe estes questionamentos, pois sem eles, a vida seria, de certo modo, desnecessária.

  • gp // 10 Setembro, 2009 às 9:24 pm | Responder

    nao vou comentar nada.

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