[disfarce seu desprezo]

[estranha mania]

6 Maio, 2009 · 5 Comentários

estranho

“A vida de Brod era uma lenta percepção de que o mundo não era pra ela, e de que – fosse por que razão fosse – ela jamais seria feliz e sincera ao mesmo tempo. Ela sentia-se transbordar, sempre produzindo e guardando mais amor dentro de si. Mas não havia libertação. Mesa, bibelô de marfim em forma de elefante, arco-íris, cebola, penteado, molusco, Shabbos, violência, cutícula, melodrama, vala, mel, paninho ornamental… Nada daquilo a comovia. Ela abordava o mundo com sinceridade, buscando algo merecedor do enorme amor que sabia ter dentro de si, mas para cada coisa teria de dizer, Eu não te amo. Mourão de certa cor de casca de árvore: eu não te amo. Poema longo demais: eu não te amo. Nada dava a sensação de ser mais do que na realidade era. Tudo era apenas coisa, completamente atolada na sua coisice.”

Tudo se ilumina

(Everything is Illuminated)

Jonathan Safran Foer

Categorizar é uma característica evolutiva dos seres humanos. Os homens pré-históricos precisavam saber que animais poderiam caçar, quais as plantas que poderiam comer e, mais à frente, o que poderia ser plantado. Às mulheres, cabia a visão geral da casa, analisando todos os riscos que estavam ao redor da cria, dividindo-os através de categorias, como alimentos a serem evitados e quais animais que poderiam matar seus filhos. 

 

Hoje ninguém caça pra comer (sem trocadilhos) e não tem nenhum tigre dentes de sabre à solta para matar a cria. Mas, ainda assim, temos a mania de colocar tudo divididozinho em nossa cabeça, seja para conseguir fazer associações de um nome à uma pessoa ou saber que dois mais dois sempre vai ser quatro. Isso é bom e necessário, mas acaba sendo um tanto limitante. Pensando de forma egoísta, categorização faz com que padrões estabelecidos sejam mais difíceis de serem mudados.

 

Por exemplo, fica bem complicado para a minha mãe entender quando digo que não tenho religião mas, ainda assim, acredito em Deus. É estranho para ela alguém ter uma crença que não está definida: não é católico, não é evangélico, não é budista e nem mórmon. Isso cria um certo transtorno de associação, já que não vai existir aquela possibilidade de me colocar em alguma categoria que, através de um nome, vai tratar de definir grande parte do que eu possa ser.

 

A complicação disso tudo ainda é maior quando se pensa que são as categorias que fazem com que ser diferente não seja considerado normal. As vantagens evolutivas esbarram na diversidade humana, não permitindo que, em muitos casos, as pessoas consigam abrir melhor o pensamento na aceitação de algo que esteja fora dos padrões que ela está direcionada a considerar como certo.

 

E em pontos que rivalizam com a própria capacidade de adaptação das pessoas, fazendo com que a interação seja dificultada e a gente deixe de conhecer melhor um bando de gente porque esse bando está fora das categorias que a nossa mente resolveu classificar como corretas. Não é querendo justificar o preconceito com ciência, até porque isso soa como eugenia.

 

Mas é inegável que fica mais fácil viver quando se consegue estabelecer quem é quem na nossa cabeça. Fulano é empresário, gosta de futebol aos domingos e é flamenguista, além de ser do grupo de homens da igreja. Beltrana trabalha com artes plásticas, tem um namorado com quem vive, mas não é casada e cozinha todos os domingos para a mãe.

 

É preciso que a gente olhe para a pessoa e coloque-a nessas linhas, nesses espaços que vão ser preenchidos e que vão, tristemente, limitar as nossas escolhas na hora de nos relacionarmos. Apesar de, obviamente, não existir obrigação alguma de se viver dando atenção para todos, quando a categorização é baseada em aspectos que ficam restritos ao que se vê e ao que se ouve, há uma perda de oportunidades. O bom mesmo é ter as suas categorias mas que elas não sejam um empecilho para o desconhecido. Se ele não agradar, colocamos aquela sensação na prateleira do que não é bom. E seguimos em frente.

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[ok]

24 Abril, 2009 · 4 Comentários

“Procure me amar quando eu menos merecer. É quando eu mais preciso”

Provérbio sueco

É difícil. Mas é válido.

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[7 espalhado]

1 Abril, 2009 · 8 Comentários

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Ela quem mandou, eu mudei algo e pus 7 porque é o número do infinito.

1. Quando você está apaixonado, volta a ter 15 anos;

2. Quando você está apaixonado, perde o medo;

3. Quando você está apaixonado pensa que futuro é algo que só se monta em dupla;

4. Quando você está apaixonado finalmente entende as músicas;

5. Quando você está apaixonado descobre o quão bom é ficar o dia inteiro dentro de casa;

6. Quando você está apaixonado entende o que leva as pessoas à se casar;

7. Quando você está apaixonado quer que seja a última vez.

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[amigos imaginários, amigos necessários]

23 Março, 2009 · 9 Comentários

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É engraçado como tendemos a ser pessimistas. E, mais engraçado ainda, é o quanto esse pessimismo tende a surgir especialmente quando tudo parece bem. Crescemos acostumados a uma certa idéia católica [não importa a sua religião, a sociedade ocidental tem um grande ranço católico, especialmente a brasileira] de que devemos sentir culpa de tudo o que fazemos fora daquelas idéias de caminho correto que as religiões estipulam.

 

Eu fui uma criança extremamente atormentada porque, desde sempre, tenho desejos e idéias que destoavam daquilo que, biblicamente, seria o certo a se fazer. E aqui não estou dizendo que era um prodígio, que ficava discutindo o sexo dos anjos na hora do recreio, longe disso. Aliás, seria até melhor se fosse assim. Eu era apenas um garoto medroso, que acreditava em inferno e, mais ainda, que ele começava mesmo na Terra.

 

Tive muitas atitudes que agora, em retrospecto, percebo que foram apenas naturais da idade, descobertas necessárias à qualquer ser humano. Mas, naquela época, me faziam sentir medo e culpa de forma física [cara, era dor mesmo] de um tanto que uma das minhas lembranças mais vívidas é de quando eu saia em meio aos ensaios da primeira comunhão para chorar, sentindo que não deveria receber aquele sacramento porque não era digno.

 

Ainda hoje tenho um enorme sentimento de repulsa com tudo que os crentes na fé católica me fizeram sentir e, ao mesmo tempo, não duvido que grande parte da minha índole [que, sem falsa modéstia, é completamente baseada no tal “fazer o bem sem olhar a quem”] teve os preceitos de Jesus Cristo com guias. Meu problema, claro, hoje percebo isso, não é com o que foi dito sobre ele ou com o que ele disse.

 

Na verdade, é mais em direção aquela frase do Sartre: “Não importa o que nos fizeram, o que importa é aquilo que fazemos com o que fizeram de nós”. Se tem algo que tento por tudo hoje é não reclamar tanto da educação que tive. Porque, sob a maioria dos aspectos, ela me fez ser uma pessoa que, na falta de palavra melhor, é boa. Mas, confesso, ainda é impossível para mim entrar numa igreja e não me sentir oprimido. Também mantenho dúvidas enormes sobre a minha fé e, mais ainda, sobre a necessidade dela.

 

Quando me vejo nesses momentos pessimistas, é quase instantâneo que o pensamento siga até deus [Deus?]. Mais ainda quando a sua felicidade iminente corre riscos, já que é meio raro sentir-se feliz em tempo integral. Quero chegar num ponto em que eu não precise acreditar só porque me sinto culpado de não fazê-lo. Quero poder escolher no que acreditar por ter chegado em um ponto que todos os meus traumas de infância serão superados [mesmo que aí pareça mais caso de análise do que crença].

 

Deus ainda me traz uma idéia maior de ser um amigo imaginário do que, realmente, uma força transcendental que move montanhas. Ser cético em relação à isso não me obriga a não achar que necessitamos dessa sensação de crença, seja em Deus ou em qualquer outra coisa. Crer é necessário, seja no que for. O fato de não termos como escolher isso quando nascemos é que faz com que aprendamos idéias que nos oprimem.

 

[esse texto, na verdade, era para ser um e-mail. Mas, acabou que viajei e se tornou isso. Meus traumas católicos mereciam um sem número de discussões, mais ainda com um profissional da área médica. Porém, enquanto não tenho grana para bancar, fico nessa de escrever]

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[quem vigia os vigilantes?]

12 Março, 2009 · 3 Comentários

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Ler Watchmen te fez entender bem porque aquela que é considerada a maior HQ de todos os tempos também era considerada a mais impossível de adaptar para o cinema. Alan Moore e Dave Gibbons não criaram uma história apenas na qual personagens falam por meio de balões. Ao subverter a idéia de que o super herói é um deus ex machina e colocá-lo sob a pressão de viver como um ser humano (e o ridículo que pode surgir de um homem que resolve combater o crime de máscara), os autores discutiram toda a cultura envolvida na nona arte e mudaram a concepção do que é uma história em quadrinhos.

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Entretanto, da mesma forma que as mudanças trazidas por eles puderam mudar a forma com que os leitores de quadrinhos enxergassem o que tinham em mãos, o cinema atual também garante que todas as idéias possam ganhar vida, se colocadas no eixo correto. E poucas pessoas sabem se valer de uma boa história como Zack Snyder.

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O diretor já havia provado em Madrugada dos Mortos (remake do clássico feito pelo mestre George A. Romero) e 300 (de outra referência dos quadrinhos, Frank Miller) que sabe ser fiel às obras que adapta e tem por elas não apenas admiração: ele as reverencia, como um fã de verdade.

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E é essa força de defender a história que faz com que Watchmen (EUA, 2009) consiga sair das páginas dos quadrinhos e ganhar vida na telona. É preciso maturidade para ler a graphic novel. Watchmen surgiu em uma época que estava saturada de heróis bobos, que não possuíam identificação com seus leitores e que até mesmo já haviam sofrido perseguição (na época da caça as bruxas, do senador norte americano Joseph McCarthy).

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Alan Moore (que é também autor do ótimo V de Vingança) discutiu política, crença, relações humanas, sexo, amor, poder e mais um sem número de sentimentos humanos nos 12 volumes do quadrinho, criando uma obra atemporal justamente por essas discussões. Zack Snyder, junto dos roteiristas David Hayter e Alex Tse, conseguiu fazê-lo da mesma forma, transportando a HQ para as telas de forma quase idêntica.

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As cenas dos quadrinhos se movimentam, com posicionamentos de câmera que parecem ter sido colocados dentro das páginas. Locais, situações, até mesmo a adaptação dos trajes é baseado completamente no que é visto na história. A mudança mais forte é mesmo o final que, apesar de manter o objetivo, teve a forma de acontecer alterada. O que, levando-se em consideração o questionamento que fica ao fim da leitura, não tira o mérito.

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Apesar dos elogios, é bom lembrar que o filme não é daqueles que pode ser aproveitado de uma única vez. Watchmen traz uma maior possibilidade de entender o que mantém o fascínio humano por super heróis, quando coloca os próprios homens como detentores de “poderes” que os fazem combater o crime. Não vá ao cinema esperando cenas de ações mirabolantes [apesar que Snyder deu uma pincelada de maior violência, bem aos moldes dos anos 2000], mas sim uma história incrivelmente bem pensada, que fala sobre e para todos. E perceba que o que era impossível de adaptar pode ter se tornado um dos melhores filmes de quadrinhos já feitos.

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[pedantes e inseguros]

27 Fevereiro, 2009 · 7 Comentários

Zeca Camargo é, indiscutivelmente, um cara que tem muita inteligência e muita sorte. Essa combinação nada comum de fatores deu à ele a possibilidade de não só hoje ser apresentador de um dos programas mais importantes da televisão [nem sei a quantas anda o Fantástico, faz tanto tempo que não vejo tv], como fez com que ele pudesse viajar o mundo inteiro para fazer o trabalho dele.

Zeca Camargo, apesar disso, é um grande poço de egocentrismo. Ler os seus textos é embarcar em uma ode à tudo que ele sabe, que ele ouve, que ele lê. É ficar com uma inveja danada de quem ele já entrevistou mas, ao mesmo tempo, ficar abusado do quanto ele acha que é importante por ter feito isso. E, pior, ele ainda tenta pagar de humilde, mas sempre acaba voltando a se mostrar como o tal.

Eu já pensava nisso desde que o seu livro de entrevistas com astros da música caiu em minhas mãos. Mas, só hoje, depois de ler isso aqui:

“Em tempo, só para esclarecer a discussão entre o IgorDG e o Josué, que mandaram seus comentários sobre a possibilidade de eu abraçar os livros no feriadão: a gente sempre acha tempo para ler alguma coisa… Neste carnaval, por exemplo, em função de uma aula que vou dar em breve, li uma ótima trilogia chamada “The liquid continent”, do canadense Nicholas Woodsworth. E ainda consegui ver “Milk” (como já mencionei) e “Quem ser um milionário?” – que, aliás, é nosso assunto de hoje”

em seu blog no G1 é que me deu o estalo para escrever não sobre ele, especificamente, mas a dúvida que me dá ver o quanto há pessoas inteligentes nada humildes. Eu mesmo conheço várias. Aquele pessoal que, por um pouquinho a mais de conhecimento que eles acreditam ter findam por estipular o que pode ou não garantir à eles mais um tanto de saber.

São aquelas pessoas frustadas por não viverem em uma Semana de Arte Moderna constante, em que o não entendimento da maioria é combustível para que eles possam tecer loas ao que eles também não compreenderam. É fácil identificar pessoas assim. Tempo desse eu mesmo vi um documentário de umas moças da UESPI sobre Intervenções Urbanas e essa necessidade pulsante de demonstrar erudição saltava na tela. Mas, tentar mostrar que se é inteligente só faz com que você demonstre que quer se vangloriar.

Por exemplo, eram comuns os discursos inflamados sobre o fato de que as Intervenções Urbanas eram a arte que ia contra o “sistema”. Me dava urticária ainda ver pessoas que, nos dias de hoje, usam a palavra sistema como se ela representasse um aglomerado de homens com cara de sangue-sugas em ternos Armani, prontos para garantir a vitória do capitalismo em todas as instâncias. Mas elas precisavam mostrar que entendiam algo daquela arte.

Precisavam dar uma opinião, dizer que eram poetas, que liam sobre aquilo tudo e, coitadas, acabavam engolidas nas palavras de quem, realmente, entendia do que estava falando, não porque demostravam essa buscada erudição, mas porque, simplesmente, se interessavam sobre o assunto e tinham como falar dele. O Zeca é um exemplo mais top.

Porque é visível que ele entende sobre o que está falando. A não ser que ele escreva bem melhor do que imagino, não dá para ter a segurança que ele tem com pedantismo. Mas me incomoda ver que, ao mesmo tempo, ele parece inseguro com as opiniões alheias, o que poderia justificar tamanha necessidade de dizer “Sim, eu posso” [nenhuma relação à obamania aqui, ok?]. Daí surgem esses dois grupos, o dos pendantes e os dos inseguros, que se encontram no receio de que achem que eles não entendem.

Como jornalista, acabo sendo cobrado diariamente para saber. Saber quem foi nomeado ministro, quem veio acabar com a farra corrupta, quem transou com a Jeniffer Aniston ou quem venceu o Oscar. Aliás, saber é pouco. É preciso dizer o que achei da nomeação, se concordo com as ações anti-corrupção, se o sexo da Aniston é notícia e se o Oscar foi justo. E, gente, isso é um saco.

Pode vir aqui outro jornalista argumentar que isso é algo da profissão, que temos de ficar sempre atentos para que tenhamos essa visão global, mas, por favor… Qual a vantagem em ser pedante ou inseguro? Não quero aqui me justificar de não saber fatos que, realmente, são meio que obrigatórios de se saber. E, admito, é terrível ouvir aqueles “Como assim, você não sabia?”.

Mas é que a gente vive num paradoxo tão grande ultimamente [informação demais que resulta em pouco conhecimento], que fico me perguntando se não seria mais sensato dar um direcionamento à isso tudo. Por exemplo, o próprio Zeca é craque em cultura pop. [eu não sei se o elogio ou se o detono, percebam].

O que me irrita é saber a quantidade de gente que acha que isso é sim importante e que jornalistas tem que dar opinião sobre tudo. Vai ver é culpa do sistema. Ou eu quem me enrolei todo nesse texto…

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[eu caio e sacudo]

12 Fevereiro, 2009 · 6 Comentários

Há muito e muito tempo que venho, de blog em blog, falando sobre a minha completa ojeriza ao fato de que eu só sei amar demais. Não existe meio-termo, mais ou menos ou gostar com o tempo. Quando o assunto é esse, só funciona quando ponho o pé na jaca. Sem receios, sem medos, sem qualquer lembrança daquela última vez que doeu o suficiente pra que você desejasse a morte. Só a certeza de que, dessa vez, é bem maior que a última e assim sucessivamente.

Mas, assim como acontece com o amor que sinto pelo meu irmão, tenho o pensamento racional de que amar demais é um problema sério, visto sob a ótica do Rafael (como sempre). Primeiro, por conta do meu puta “complexo de superioridade direcionado à merdas”. Explico: não é um convencimento que faz com que eu fique fazendo ar de blasé para qualquer pessoa que tenha qualquer frescura comigo.

Eu me acho de pensar que sempre sempre sempre que a pessoa que eu ame tem um problema, a culpa é minha. Do tipo que um “A gente precisa conversar” desencadeia toda uma série de pensamentos pregressos sobre o que eu possa ter feito, sob que circunstância e blá blá blá. Mesmo com a consciência limpa, sabendo que não havia nada com o que se preocupar, fico encucado achando que aquela conversa será o início do fim.

E, na maioria das vezes (NA MAIORIA DAS VEZES) o problema é algo externo, distante, e o “A gente precisa conversar” significa “Quero conversar com você porque isso me acalma”. Mas, antes de saber disso eu já analisei todos os meus passos, minhas refeições, até as vezes em que fui ao banheiro pra saber se fiz alguma cagada [não literal] que justificasse a conversa. Bom, isso é só um exemplo, mas a minha gastrite entre numa lombra louca com ele.

O fato é que amar demais [e, é bom deixar bem claro, dá pra amar demais mesmo sendo correspondido] te deixa com muitas dúvidas sem sentido, típicas de quem está apaixonado, mas extremamente cansativas para alguém que, como eu, tem noção de o quanto elas são desnecessárias. Porque não é suficiente ouvir um “Eu te amo”? Não faço idéia. Mas é certo que, da mesma forma que a distância traz dúvidas, a proximidade retira toda preocupação e lá estou eu com raiva de novo de mim mesmo porque, não adianta, não fico com raiva de quem eu amo quando ela está por perto.

É um paradoxo constantemente renovado, ainda mais quando os problemas que te cercam acabam ficando restritos à situação do seu relacionamento. Sabe aquele lance de que o ser humano é um eterno insatisfeito? Então! Encontrar problemas onde eles não existem é uma dolorosa forma de não acreditar em tanta felicidade. Estranho demais, minha gente…

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[verdade e consequência]

27 Janeiro, 2009 · 7 Comentários

trueO aspecto mais engraçado da verdade é o quanto que ela ganha os mesmos contornos da mentira quando você tem bem mais do que preocupações com o seu boletim escolar. Não que seja melhor viver uma mentira e todas os ensinamentos maternais devem ser celebrados nesse momento. A questão é que o mundo em que eu vivo não aceita as verdades tão bem quanto finge não perceber as mentiras.

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E aqui não estou me lamentando, até porque esse tipo de lamúria já foi mais do que vista e revisada, mas é sempre bom falar sobre você mesmo quando se percebe que existe sim uma linha muito tênue entre as sensações causadas pela verdade e pela mentira. Há umas duas semanas eu falei sobre minha completa incapacidade de ser 100% sincero com quem amo. Na semana seguinte, eu digo para o Pedro que não existem mais mentiras entre nós dois.

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Quanto paradoxo para um ano que mal começou, não é mesmo? Me sinto feliz, me sinto muito bem podendo saber que encontrei os melhores amigos que alguém precisa mas, ao mesmo tempo, sempre vai existir aquela solidão natural do distanciamento, da minha idéia formada de que, não importa o tamanho dos seus problemas, só você vai enxergá-los tão grandes. E é aí que vejo uma completa desvantagem entre a verdade e a mentira.

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Que tal manter seu problema longe do conhecimento de quem você ama? Prático. A tua angústia não precisa ser partilhada, até porque ela não é única, nem sua e nem dos outros. Você se mantém preso aos seus pensamentos, consegue [pelo menos consigo] trabalhar certos conceitos sozinho e, voilá, passa pelo turbilhão sem incomodar ninguém. Mas, só pra ser ruim, sempre vão existir aquelas angústias que, de tão grandes, transbordam e você acaba tendo de recorrer a quem ama.

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Daí você fala a verdade, explica a situação, conversa, ouve, abraça, beija, teme, não teme, se destempera, tudo isso durante uma noite apenas, somente naquele momento em que tudo se fez visto. Daí chega aquela outra noite, sozinho no seu quarto [completamente sozinho em seu quarto], pensando que até quem você mais ama tem mais problemas a resolver do que suas bobagens sentimentais e a agenda do celular é mínima.

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Por que ligar pra ele? Por que ligar pra ela? Para ouvir o que? Tudo parece resumido à um “calma”, “vai passar”, “é assim mesmo”, numa sucessão de frases feitas que, em nenhum momento, denotam falta de preocupação do seu ouvinte mas que, simplesmente, mostram que aquilo é seu e não adianta ficar choramingando. Sabe o que é mais engraçado de tudo isso que eu sinto?

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Jamais conseguiria imaginar que alguém pensa isso de mim. Pelo contrário. Quero ser procurado, quero ouvir lamentos, quero compartilhar. Mas não acho que você precise fazer o mesmo porque nunca penso que aquilo é completamente desprovido de um “ah, meu deus, lá vem de novo”. É por isso que me sinto muito sozinho, na maior parte do tempo. Porque criei essa ilusão de que o importar-se é uma característica de quem tem pouco a oferecer. Por isso que me importo. Porque é a forma de manter vocês por perto.

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Daí eu fico nessa dicotomia maluca, falando verdades e mantendo mentiras, de acordo com o que imagino que possa fazer com que ninguém tenha problemas que sejam originados por mim. Esse texto, por exemplo, é ótimo para mostrar isso. Porque duvido que alguém não já tenha desistido dele na metade quando pensou: “Lá vem esse cara choramingar de novo”. É isso. Por aqui é mais fácil ser verdadeiro.

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[quem quer ser milionário?]

14 Janeiro, 2009 · 9 Comentários

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Tem gente que precisa de bem pouco pra ser feliz. Jamal só precisava de Latika. Mas, precisar de alguém em meio à pobreza indiana pode ser mais do que se supõe. E, no desespero de conseguir a única coisa que necessitava pra sua felicidade, Jamal arrisca tudo. Inclusive um prêmio de milhões de rúpias.

Danny Boyle já falou de drogados, de zumbis e da destruição do sol. Não sei se já havia falado de amor, mas agora, com Slumdog Millionaire ele não precisa se preocupar mais com esse sentimento: já conseguiu mostrar em película o quanto ele é belo, animador, excitante e necessário. O filme tem um roteiro de idéia simples: um favelado indiano participa do programa Who Wants to be a Millionaire? (nosso conhecido Show do Milhão) e começa a responder todas as perguntas de forma correta.

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O problema é que ele parece saber demais e vai preso, suspeito de estar trapaceando. A questão é que ele não está e, a partir da sua trajetória de vida pelas ruas apertadas e infestadas de gente de Mumbai, capital da Índia, ele vai justificando o conhecimento de cada uma das respostas. E, mais ainda, ele mostra que tudo o que sabe acaba sendo relacionado ao grande amor da sua vida.

Lendo assim parece bobo. Quem quer ver a história de um moleque que não tem grana pra garantir o amor da mocinha? Mas aqui é Danny Boyle, minha gente. Cercado de gente tão boa quanto ele, do diretor de fotografia inspirado (Anthony Dod Mantle, que soube estourar todas as cores de uma boa produção de Bollywood), uma trilha sonora magnificamente bem escolhida (feita pelo indiano AR Rahman) e de atores que vão do altamente talentoso à fofura extrema (o menino Jamal é sem explicações e o Dev Patel, que o faz grande, já é meu brother desde Skins), ele escolheu tudo à dedo.

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O filme, todo feito na Índia, ainda corrói suas idéias pseudo-ativistas ao mostrar a pobreza do país de forma bem crua, especialmente com as crianças, que são usadas de todas as formas para conseguir sobrevivência: delas e de quem mais for preciso. E, mais ainda, mostra que essa mesma pobreza fica bela (mesmo que não menos incômoda) quando filmada em película, como a gente vê fácil em Cidade de Deus, por exemplo.

Slumdog Millionaire é um filme belo, no sentindo mais pleno da palavra. É uma luta meio que inverossímil, especialmente em um local tão recheado de possibilidades de nada dar certo como a Índia mostrada na tela. Mas, é justamente por isso, justamente por você sentir tantas coisas diferentes, como tensão, felicidade, amor, raiva, ódio, esperança é que você se despe da precisão de um fio narrativo de extrema verdade pra uma história que parece se propor à ela.

Você entra no sorriso de Jamal e no olhar dele pra Latika. E percebe que, puta que pariu como tô influenciado, que interessam 20 milhões de rúpias se eles podem ficar juntos?

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[sinceridade disfarçada]

9 Janeiro, 2009 · 7 Comentários

Às vezes fico na expectativa de que meus dias possam ser mais interessantes para que eles pudessem ser relatados. Sempre tive vontade de ter um diário pessoal, mas não sei muito bem ser sincero comigo mesmo.

Parece que quando as coisas partem da minha cabeça para o papel elas já vem carregadas de um certo receio de alguém possa lê-las e, assim sendo, possa me descobrir. Porque, tentando explicar as coisas direitinho, eu sou muito sincero quando escrevo.

Só que a minha sinceridade é bem lotada de entrelinhas, de viagens não tão viagens, como uma forma de me proteger da minha própria capacidade de falar sobre mim. E, quando penso em escrever um diário, fico me perguntando o quanto eu poderia ser extremamente sem rodeios ao ponto de não ter medo de que ela venha a ser achado.

Mas, daí também vem uma certa vaidade de poder ser lido. A idéia de identificação, até mesmo da repulsa, mas nunca da indiferença com o que eu escrevo. O Pedro já me disse que eu deveria ser pago para escrever sobre mim mesmo, tamanha intenção que tenho de me mostrar.

Sabe aquela teoria que faziam sobre serial-killers, de que eles sonhavam em ser pegos? Se pra eles isso é mentira, pra mim (que não tenho nenhuma relação com o sr. Lecter ou seus amigos de hobby) cai diretinho. Eu tenho medo de ser completamente sincero, por achar que sou verdadeiro demais na exposição dos meus defeitos.

Não tenho mais do que ninguém, mas também não os nego. Mas existem certos aspectos, que nem se enquadram na definição de defeito, que me fazem bloquear minha total sinceridade. Minha mãe diz que sou sincero demais com as pessoas, confio demais nelas e não quero enxergar quando me enganam, e ela está certa.

Mas, ao mesmo tempo, sou de uma carência atroz, que me faz exigir demais das pessoas quando elas tem um pouco que seja de amor por mim. É meio paradoxal, mas saber que você me ama me faz ter uma certa necessidade de que isso seja provado sempre, simplesmente porque sou carente demais pra acreditar que isso possa ser uma verdade completamente despida de interesses.

Já fiz muita merda por ter tanto medo de perder quem eu amo, inclusive coisas que dariam motivos suficiente pra que elas me deixassem mesmo, assim, facinho. Seja duvidando do que elas sentem, seja implicando até o ponto deles quererem me bater (bêbado chato, eu? Imagina) e até mesmo ficando longe do nada só porque eu… sei lá o porquê!

Daí, sendo eu essa pessoa tão inconstante e medrosa (mas também posso ser legal, viu pessoas que não me conhecem e só lêem o blog. É porque aqui me detono mesmo), fico guardando certos aspectos que, na minha opinião, possam me afastar ainda mais dessas pessoas.

Esse ano eu resolvi ser menos egoísta e isso consiste em não tentar, a todo custo, pensar que não dependo das pessoas, idéia de jerico que eu tentava incutir só para depender menos. Não nasci para ser daqueles personagens de filme que são super independentes e não sorriem porque não gostaram da piada.

Eu sou daqueles que adoram mesmo receber uma mensagem de pessoas que estão longe (né, Sanmya?), que vibram com uma troca de e-mails furtiva para falar do dinheiro que o chefe está devendo e até mesmo acha legal ficar falando da vaca maldita que tem um cheiro impregnante.

E, se ser completamente sincero é uma vantagem, não sei. Acho que ninguém o é, por isso vou tentar perder todo o receio de ter parado nessa busca. Até porque, caso vocês me conheçam por completo, qual será a graça de a gente continuar junto?

→ 7 ComentáriosCategorias: amor · egoísmo